Indiscutivelmente, mudanças de toda ordem passaram a fazer parte de nossas vidas. Nós da geração sênior, testemunhamos mudanças significativas, dos anos 50 até os dias de hoje. Algumas delas promoveram transformações disruptivas na evolução humana e no comportamento da sociedade. A pílula anticoncepcional, o rock’n roll, a liberação feminina, a internet, o celular, as redes sociais e mais recentemente a inteligência artificial são alguns dos vetores de mudanças.
Com o tempo, as mudanças tornaram-se tão velozes, amplas e complexas que as pessoas, as organizações e os governos têm dificuldade de assimilá-las, pois elas ocorrem de forma fragmentada e imprevisível e, seus impactos dificilmente são avaliados em tempo hábil. Um exemplo é a elevação da expectativa de vida, em contraponto com a baixa natalidade, que ampliou sobremaneira a população sênior do planeta, transformando este fenômeno num dos principais desafios do século 21. Em menos de dez anos o Brasil será um país idoso, que ocorre quando população acima de 60 anos é superior à de jovens até 15 anos. Hoje, o país já tem mais avós e avôs do que bebes.
· O clima mudou. Sabemos as causas e sofremos com as consequências, mas não conseguimos um consenso global para lidar com essa grave questão.
· A energia mudou. Até pouco tempo só conhecíamos duas ou três formas, mas agora existem outras, mais eficientes, limpas e menos danosas ao meio ambiente.
· A tecnologia mudou o mundo. Canibalizou tradicionais meios de comunicação e impôs novas formas de relacionamento pessoal e profissional. Hoje, somos reféns dela.
· A tecnologia mudou o tamanho e o poder das engenhocas. Agora, elas cabem na palma da mão e podem ser usadas por qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta.
· A medicina e a engenharia genética estão mudando a relação entre a vida e o tempo, pois sabemos cada vez mais sobre o funcionamento do corpo humano, mas ainda não temos todas as respostas e nem a agilidade necessária para curar doenças com a gripe ou o câncer.
· O amplo debate sobre a diversidade e a temática de gênero está mudando a percepção da sociedade sobre este grave problema. É o primeiro passo para criação de uma sociedade mais inclusiva, menos machista, sectária e violenta.
· A alimentação está mudando. As pessoas estão mais conscientes dos efeitos da comida industrializada e das qualidades da orgânica, que ainda é cara para consumidor comum.
· A mobilidade urbana está mudando. Os carros dividem espaço com bikes e patinetes. O veículo deixou de ser o sonho de consumo dos jovens. Os aplicativos entraram em cena.
· Surpresa! O capitalismo está em processo de mudança. A pandemia expos a necessidade de se rever o modelo tradicional. Estão emergindo novos conceitos como o capitalismo consciente, que tem uma perspectiva menos predatória e mais social do poder do dinheiro.
· E por falar em dinheiro. Os bancos mudaram. As agências físicas estão sumindo. Os digitais já tem a maior fatia do mercado e mais de 60 milhões de correntistas.
· Algumas nações também mudaram nas últimas décadas. A Iugoslávia e a União Soviética não existem mais. No lugar delas surgiram outros 23 países, com novos problemas e desafios a superar.
· A educação está mudando. É vital adotar uma pedagogia moderna, sintonizada com a realidade do século 21, que desafie o professor e estimule o aluno a aprender para transformar a sua realidade.
· O meio ambiente mudou e mudou para pior. Assistimos diariamente a destruição de florestas e a exploração predatória de recursos naturais, o que coloca em risco nossa sobrevivência no planeta.
· A solidariedade foi uma mudança boa que emergiu na pandemia. Passamos a nos importar mais com os outros. Porém, precisamos avançar nesse campo. Para muitos, o Covid-19 é uma espécie de teste a que a humanidade está sendo submetida para avaliar se conseguimos sobreviver como um gigantesco coletivo. Uma mudança e tanto.
Futuristas como Ray Kurzweil, Michio Kaku, Martine Rothblatt, Yuval Harari, Silvio Meira, entre outros, assumem que a velocidade das mudanças é maior do que a nossa capacidade de assimilá-las. Rothblatt, por exemplo, profetiza que até o final deste século vamos assistir “a morte da morte”. E para lidar com a intensidade, o volume e o porte das mudanças, o único caminho é o do entendimento e da aceitação das diferenças, sejam elas ideológicas, sociais, políticas, econômicas, raciais, etc.
Nunca na história da humanidade o homem soube tanto sobre tudo. Sabemos que podemos erradicar a pobreza. Sabemos que a distribuição de renda tem que ser mais justa. Sabemos que podemos acabar com a fome no mundo. Sabemos que temos que preservar o meio ambiente. Sabemos que o aquecimento global e reversível. Sabemos muito mais sobre o funcionamento do cérebro e do corpo humano. Sabemos que as empresas e os consumidores devem ser aliados. Sabemos que precisamos consumir alimentos saudáveis. Sabemos que saúde é mais do que remédio, hospital e médico. Sabemos que não precisamos terraformizar Marte, pois a Terra é um lugar privilegiado do Cosmos, que só nos pede respeito e carinho.
O Dr. Ichak Adizes, integrante do Heartfulness Institute, é um dos especialistas que estudam os impactos das mudanças nas organizações e no ser humano. Em outubro de 2020, ele expos sua tese num Fórum Internacional na Eslovênia. Para ele, a palavra mágica para enfrentar as mudanças é Integração, mas com respeito às diferenças.
“Quanto tempo levou para os macacos perderem a cauda? E quanto tempo levou para os hominídeos começarem a andar sobre dois pés? Milhões de anos! Agora, as mudanças são aceleradas, mas o corpo humano não consegue acompanhar a velocidade com que o mundo está mudando. Não conseguimos nos adaptar aos produtos químicos dos alimentos, ao ar e à água poluídos e ao estresse do dia-a-dia. Nossos corpos não conseguem lidar com a velocidade das mudanças do ambiente. O que acontece? Perdemos nossa imunidade e nossa força e, os anticorpos para enfrentar o COVID. Esse vírus começou a nos matar porque estamos mais fracos. O vírus afeta pessoas que têm o sistema imunológico enfraquecido, cujos corpos são incapazes de lidar com a doença. COVID-19 é o resultado de mudanças rápidas e aceleradas às quais não conseguimos nos adaptar. Uma vacina resolverá o problema? Não. É apenas mais um curativo. O problema é a falta de integração para solucionar – enfrentar – problemas. A solução real é lidar com a causa-raiz: a integração”.
A palavra Integração, enfatizada pelo Dr. Adizes, tem que ser compreendida no sentido mais amplo do termo. Uma Integração que abriga pessoas, governos, organizações públicas e privadas para lidar com as mudanças impostas, ora pelas inovações ininterruptas, ora pelo comportamento negligente do próprio homem. Fato é que sem entendimento, sem diálogo, sem aceitar as diferenças, sem compaixão, sem a compreensão de que somos um coletivo de 8 bilhões de pessoas, corremos o sério risco de sucumbir ao impacto das mudanças, mesmo tendo acesso às informações e conhecimentos que nos permitem enfrentá-las.
Para que a Integração ocorra de fato, precisamos inserir um elemento importante no processo: o amor. Parece piegas falar em amor nesse contexto, mas não é não. A solidariedade, que se fortaleceu com a pandemia, tem tudo para evoluir e se tornar esse sentimento caro e raro que fortalece todos os seres vivos. Já que as mudanças se tornaram irreversíveis em nossas vidas, vamos agir de forma coletiva, utilizando o amor como conector, que é o sentimento mais essencial ao ser humano.
