A raiva é um sentimento que nos acompanha, como uma espécie de amigo oculto e indesejável. Em nosso dia-a-dia, seja no ambiente familiar, social ou profissional, a raiva emerge sem aviso prévio. Nos últimos dias, andei trabalhando esse sentimento, através dos ensinamentos de Kamlesh e da prática de meditação conhecida como Hearthfulness, para enfrentar uma reunião estressante, povoada de egos inseguros e raivas diversas. O desafio de lidar – ou dominar – a raiva é complexo mas necessário, já que assim como o Amor, o Ódio é um sentimento divino. Sem delongas, convido a todos a ler o texto abaixo do Mestre Kamlesh Patel, que nos abre uma perspectiva de sabedoria sobre a raiva e de como torná-la aliada e não inimiga. É longo mas vale a pena. Enjoy!
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“Queridos amigos,
A maioria de nós luta com a raiva. Quando estamos com raiva, frequentemente criamos conflitos, tensões, além de machucar os outros. Depois, acabamos nos arrependendo daquilo que dissemos ou fizemos. E aqueles que machucamos, por vezes, são as pessoas mais queridas e próximas de nós. Nestes casos, a nossa raiva é reativa e desregulada. Isso acontece pois não compreendemos a verdadeira natureza e o propósito da raiva, e também porque não possuímos os meios de controlar esta emoção volátil e, assim, ela torna-se destrutiva. Uma vez que compreendemos melhor nossos padrões, a raiva pode vir a ser uma boa amiga.
O que é raiva?
Em sua forma pura, a raiva é simplesmente uma carga de energia em nosso sistema. Ela começa na membrana energética do corpo sutil e se espalha no corpo físico. Vamos explorar porque isto acontece e como utilizar esta descarga de energia para o nosso benefício. Meu Mestre, o querido Babuji Maharaj, dizia que a raiva é uma de duas únicas emoções que nos foram dadas por Deus para um propósito divino. Estas duas emoções são kama (paixão) e krodha (raiva). Ambas jamais podem ser destruídas.
É óbvio porque kama é uma emoção divina – sem ela não haveria procriação e a nossa espécie humana morreria em poucas gerações. Mas e a raiva? Seu propósito é, na realidade, o nosso aperfeiçoamento contínuo, e as práticas Heartfulness nos ajudam a dominar este processo. Mas primeiramente, vejamos o que normalmente acontece quando estamos raivosos.
O jogo de culpa
Quando algo sai errado, geralmente culpamos o outro ou a situação e dirigimos o fluxo de energia em sua direção: “Ele fez uma coisa que me deixou muito bravo,” “Fui coagido a fazer algo e não tive escolha, exceto ficar com raiva.” Uma pessoa recém formada fracassa em sua primeira entrevista de emprego e culpa o entrevistador ao invés de reconhecer o seu próprio despreparo. Políticos, quando perdem as eleições, culpam os equipamentos de fraudar as eleições. As desculpas para faltar na meditação são inúmeras, mas só há uma razão para fazermos a coisa certa. Quando há problemas no casamento, frequentemente culpamos o parceiro. Seria mais produtivo e honesto admitir a própria fraqueza, mas o ego não permite que o façamos.
A culpa pode também voltar-se para dentro de nós. Nos martirizamos, mas não de maneira construtiva: “Não tenho jeito! Por que fico repetindo o mesmo erro o tempo?!” ou “Quando é que vou aprender!” Quando voltamos o jogo da culpa para dentro de nós, sem reflexão e consciência, é destrutivo também; permanecemos presos nos mesmos padrões.
Einstein disse, “Nenhum problema pode ser resolvido no mesmo nível da consciência que o criou.” Agora vamos aplicar o conceito: temos que ir para um nível de consciência diferente a fim de transcender o ponto de consciência de onde a raiva emergiu. O que precisamos é alcançar um nível superior de consciência, mas é fácil falar e difícil de fazer!
O que significa quando dizemos, “Esteja consciente”? Estar consciente significa não permitir que a mente se expresse com base em impressões, preconceitos ou julgamentos. E como treinamos nossa mente para não ter impressões, preconceitos ou julgamentos? Esta é a chave. Temos que encontrar uma maneira de conseguirmos analisar e encontrar soluções. Temos de aceitar a realidade da situação e trabalhar a partir daí.
Reclamar e culpar os outros é sinal de não aceitação. De certa maneira o jogo da culpa nos transforma em vítimas impotentes. Por outro lado, esse jogo nos leva a buscar a concordância e a simpatia dos outros através de fofoca e de justificativas para a sua inocência; não somos nós que precisamos mudar. Evitamos olhar para nós mesmos apontando o dedo para os outros.
E então há um outro tipo de reação – a supressão da raiva, que se acumula criando uma espécie de panela de pressão emocional dentro de nós. Será que isso ajuda? No fim, a energia implodirá dentro de nós, ou esfriará e estagnará, criando ressentimento e amargura. Isso causará consequências que se expressarão em questões de saúde física e mental.
Como podemos encontrar uma resposta mais saudável? Vejamos o conceito de aceitação. Imagine que alguém tenha feito algo realmente ruim para machucar a sua família. Será que aceitar a situação significa não fazer nada? A este respeito, uma vez me perguntaram: “Quando a aceitação torna-se algo irresponsável?” Aceitação não significa ser fraco ou covarde. Não significa não fazer nada. Apenas quer dizer que somos capazes de aceitar a realidade das circunstâncias atuais sem reagir fortemente no momento, e então ir adiante a partir daí. De alguma forma, uma nova consciência se abrirá, seguida da ação correta. Heartfulness apoia isso de inúmeras maneiras, tais como:
§ Buscar refugio no Guia ou em Deus imediatamente aciona uma mudança em nós;
§ O método de Cleaning sempre nos ajuda a eliminar uma forte carga emocional; e
§ Ajuda externa em forma de Transmissão pode ser um catalizador milagroso para administrar a raiva, o medo e o estresse.
Qual é o gatilho da raiva?
Muitas coisas funcionam como gatilho para raiva, e elas podem se originar tanto dentro como fora de nós. Por exemplo, circunstâncias e eventos trágicos, insultos, criticas, conselhos e humilhação são exemplos de gatilhos externos, enquanto que expectativas, desejos e vontades são gatilhos internos. A raiva pode, também, emergir de dentro de nós quando nossos samskaras estão sendo limpos – podemos não estar conscientes da origem da raiva neste caso, uma vez que ela tem suas raízes no passado. Ela se armazenou em nosso subconsciente há muito tempo atrás, formando um nó de energias presas, que agora estão sendo liberadas.
Lidando com a crítica
Uma causa bastante comum da raiva é a crítica, especialmente quando sentimos que estamos sendo criticados injustamente, ou sem que a tenhamos solicitado. O que acontece? Geralmente ficamos com raiva e defensivos, ou nos sentimos magoados, pois este é o nosso hábito. Como seriam as coisas se pudéssemos responder de outra maneira? E se pudéssemos parar e considerar a crítica como uma oportunidade de aprender algo sobre nós mesmos? Afinal, não precisamos concordar com tudo que o outro diz se a mensagem não nos diz respeito. Tente ficar grato se alguém lhe diz: “Veja, você errou.” Quando você refaz suas conexões neurais, pode agradecer à pessoa e lhe dizer: “Agora tenho a oportunidade de me corrigir; não tinha percebido o erro antes de você mostrá-lo a mim.”
Com essa atitude de abertura, você consegue acolher mudanças e novas possibilidades, e o resultado será uma continua melhora. É por isso que o primeiro Guia do Heartfulness, Lalaji, dizia que a crítica é necessária se desejamos alcançar a santidade. Esqueça a santidade – a crítica é necessária se desejamos alcançar excelência em tudo o que fizermos. Para uma pessoa com essa compreensão, a crítica não parecerá negativa; será uma oportunidade.
Expectativas
Uma outra causa comum da raiva é a nossa expectativa. Quando não estamos preenchidos, elas normalmente tornam-se feias e dão vazão a esta raiva violenta. A insistência na satisfação das expectativas é pior ainda, é como se jogássemos óleo em fogo. A diferença entre termos uma expectativa e a insistência na sua realização tem que ser compreendida. Por exemplo, veja a diferença entre uma criança que diz: “A mamãe deveria vir me buscar na escola,” e “Só a minha mãe pode me buscar na escola! Ela tem que me buscar!” Obstinação na realização de expectativas alimenta a raiva com maior intensidade.
Onde está você?
Vamos ver como a meditação nos auxilia a ficarmos mais alertas no gerenciamento da raiva. Pergunte-se: “Quando eu medito, minha atenção está presente? Estou testemunhando minhas ações, meus pensamentos e sentimentos, ou estou mentalmente ausente?” Você também pode se perguntar: “Quando estou com raiva, tenho consciência do que se passa dentro de mim, ou estou ausente?” Na maior parte das vezes é a ausência de atenção que aciona a raiva. Quando não estamos presentes, quando estamos ausentes, como podemos controlar o que fazemos, seja meditar ou sentir raiva?
Quando sentir raiva, observe como ela está fluindo. Não reprima a raiva, deixe que ela se apresente, fique ciente dela. O ato de testemunhar funcionará como uma luz na escuridão. Quando você se torna ciente do que está acontecendo dentro de si, um sentimento de paz toma conta de você. A energia que estava alimentando a raiva, agora alimenta uma paz que você não conhecia antes. Esta contradição é devido à própria natureza da raiva. À medida que você vai se tornando consciente, o espaço de tempo entre a raiva e sua inflexão vai diminuindo, e conforme este espaço diminui a partir da sua consciência, ele acaba tendendo a zero e você estará sempre em paz.
A magnífica paz aniquila os impulsos da violência. É num ambiente de paz que a criatividade encontra o seu verdadeiro significado. É num ambiente de paz que as mães conseguem nutrir seus filhos. É num ambiente de paz que testemunhamos e desfrutamos da alegria e de tantas outras maravilhas.
Através da prática da meditação desenvolvemos a habilidade de estar presentes e conscientes. Assim, a meditação nos ajuda a diminuir a lacuna entre a raiva e o seu ponto de inflexão. Somos capazes de responder mais rapidamente com empatia e nobreza de caráter.
E a atitude?
Agora pergunte-se o seguinte: “Por que desejo refrear minha raiva?” Porque você a considera um pecado, ou porque ela elevará seus níveis hormonais e prejudicará seu sistema? Se este for o caso, você está um passo além de alguém que fica o tempo todo com raiva, mas ainda é uma motivação egoísta que carece sabedoria, pois ela deriva de um desejo de impedir o pecado e não de um coração compassivo. Você está alerta para não cometer um pecado e consequentemente não ser punido. É a atitude com a qual você refreia a raiva que mudará o seu futuro. Será que você não quer machucar o outro, ou será que você está mais preocupado em proteger a si próprio de um ato pecaminoso, assegurando, assim, seu lugar no céu? É melhor optar pela bondade e pela compaixão.
Postergando a raiva
Em geral, deixamos as coisas boas para mais tarde, como por exemplo meditar regularmente, comer comida saudável ou fazer exercícios; mas raramente a explosão de uma raiva é deixada para depois! Pense no seguinte: Você consegue manter essa intensidade por mais de 24 horas? Até lá ela terá se dissipado do seu sistema ou terá sido internalizada. Não conseguimos segurar uma energia tão explosiva por muito tempo. Além do mais, quando sentimos raiva, ela pode ter um efeito muito duradouro, que se estende até o futuro mais longínquo. A toxina que acompanha uma explosão pode ser muito estressante, causando danos a muitas pessoas.
Então, tente parar ou simplesmente postergar a explosão um dia ou dois. Pode acontecer o seguinte:
1. Você pode sentir pena do outro;
2. Você pode pensar: “Graças a Deus eu não reagi!”;
3. Você também pode se dar conta de que a outra pessoa tinha razão ao criticar você. Então você pode agradecê-la por ter dito a verdade;
4. Mesmo se o outro estiver errado, porque piorar as coisas? Ao não reagir, você estará preservando o relacionamento além de melhorar a situação.
Energia emocional
Uma vez que a raiva surge, a energia que é ativada permanece presa dentro de nós até que haja um resolução. Um episódio triste com alguém permanece como impressão emocional até que a situação se resolva. O amor cria um vácuo. Tudo isso reverbera como uma onda, tanto dentro de nós quanto nas outras pessoas da nossa vida.
Alegria e outras emoções positivas também criam campos de energia: elas apresentam uma curva inflada comparado às memórias emocionais negativas que apresentam uma curva invertida.
Lembram da lacuna de tempo de resposta sobre a qual falamos antes? Pessoas sábias que conseguem dominar suas emoções evitam ter de reduzir esta lacuna, pois elas sabem como impedir que a raiva se manifeste. Antes que algo aconteça, elas já previram possíveis resultados e fazem o ajuste necessário até que a condição interna esteja de tal ordem que não haja mais necessidade de ajustes. Compare isso com o outro extremo – aquelas pessoas que são tão tolas que raramente ajustam suas emoções mesmo depois de testemunharem as consequências das mesmas. A maioria das pessoas encontra-se em algum ponto entre estas duas pontas. Elas caem em si depois que sentiram raiva e se corrigem, enquanto aquelas que estão um pouco melhor se dão conta da raiva durante o processo conseguindo interrompê-lo.
Revelando nossa verdadeira natureza passo-a-passo
Pessoas sábias também aprendem a controlar outro tipo de lacuna de tempo – a lacuna entre dois desejos que distraem. Desta vez queremos que o espaço de tempo aumente à medida que progredimos, e conforme este espaço ou lacuna de tempo aumenta, a lacuna entre dois pensamentos associados também aumenta. Isso leva, por fim, a uma condição permanente chamada nirodha, na qual a mente alcança um estado perfeitamente auto-contido, sem desejos ou pensamentos. Agora que não há perturbações devido a desejos e pensamentos, conseguimos nos regozijar na verdadeira natureza do Eu. Agora temos paz, temos pura consciência; não estamos mais sendo puxados daqui e dali.
Nirodha se liga a uma outra tendência conhecida como ekagra-vritti, que nos impulsiona em direção aos nossos mais preciosos objetivos de vida. Nirodha desfaz desejos e egos impactantes e ekagrata foca nossa atenção em direção à nossa meta. Juntos funcionam como uma espada de dois gumes, nos conduzindo ao Samadhi, devido a sua capacidade de assentar a tempestade de poeira que surge a partir dos desejos e do egoísmo. Pensamentos, ideias e intenções vão pouco a pouco desaparecendo. A medida que o espaço entre os pensamentos aumenta, existe a possibilidade dos pensamentos surgirem e, então, os pensamentos são substituídos por sentimentos de vários tipos. Um sentimento se vai e outro toma conta, até que o espaço entre os sentimentos também aumenta e eles também desaparecem. Eles são substituídos por estados de vir a ser ou tornar-se algo. Um estado de tornar-se se vai e outro toma conta, e assim por diante….
Durante a meditação, podemos observar que conforme o espaço entre pensamentos aumenta, o resultado é atenção focada, especialmente quando os dois pensamentos são idênticos. Por exemplo, temos o pensamento da fonte da luz divina no coração. Após algum tempo, o mesmo pensamento se repete. Da mesma forma, quando o espaço entre dois sentimentos aumenta, a recorrência idêntica leva ao sentimento focado, nos proporcionando o mesmo nível de estabilidade emocional e paz.
Comparemos isso com um estado mental mais mutável: Tente lembrar-se de quando sentiu raiva recentemente – quanto tempo durou a raiva? Quais foram os sentimentos que seguiram logo após a raiva, e depois? Lembra-se de quando sentiu-se feliz e alegre? Quanto tempo durou este sentimento e o que você sentiu depois? Tristeza é seguida de alegria, prazer é seguido de culpa, raiva é seguida de compaixão e absorção é seguida de inquietação. Há uma constante mudança interna, como as formações de nuvens no céu eternamente mutantes. Nosso céu de consciência está sempre mudando dependendo dos nossos pensamentos, sentimentos e condições.
Nos tornamos tantas coisas em um período de tempo tão curto. De manhã você pode estar inquieto e ansioso devido a um exame, mas depois do exame e tendo ido bem nele, você fica alegre. Quando nosso foco está sempre mudando, bem como nosso entorno, nossos sentimentos e condições, nos tornamos vulneráveis. Imagine um pássaro voando rápido – é muito difícil fotografá-lo enquanto ele está em movimento. Da mesma forma, é difícil localizar precisamente uma mente que está constantemente se movendo de um pensamento para outro, de um sentimento para outro. E no caso da nossa mente, ela se move mais rápido que a velocidade da luz! Pode uma mente que vagueia alcançar a paz?
Portanto, a solução é desenvolvermos uma mente focada. E isso só é possível através de um tipo de ginástica mental. O melhor tipo de ginástica mental é oferecido pelas práticas Heartfulness, porque quando adotamos estas práticas, a atenção uni-focada acontece de maneira simples e sem esforço. O resultado natural de termos uma mente focada é que o coração permanece estável com sentimentos uni-focados. Permanecemos constantemente afinados com nossos sentimentos internos. Se também purificamos e simplificamos nossas tendências comportamentais, podemos alcançar um nível onde o pensamento, o sentimento e a condição uni-focada permanecem.
Quando iniciamos nossa jornada spiritual, meditando todas as manhãs, as vezes é frustrante pois o coração e a mente estão repletos de pensamentos e sentimentos. Queremos estar em paz e aquietados, entretanto estamos perfeitamente cientes da atividade interior. Na verdade, isso é bastante normal. É raro termos uma atenção uni-focada desde o início. Concentração é o resultado da meditação, e não o inverso. Por sorte, desde o início, a Transmissão nos proporciona relances de estados focados, o que nos incentive a continuarmos.
Em dado momento, vamos além do sentimento para o “tornar-se”. No espaço de tempo entre estes estados de “tornar-se” conseguimos permanecer estáveis, ou sthit. A medida que o espaço entre este dois estados de “tornar-se” aumenta, o estado estabilizado abre caminho para o salto para o abismo do Vazio Absoluto. Sem essa estabilidade de coração e mente, permanecemos no limbo.
O que você diz para aqueles amigos que ficam mudando de ideia? Sua volubilidade é o oposto de constância e estabilidade. Um outro exemplo é quando duas pessoas vêm a mim de mãos dadas declarando seu amor um pelo outro, dispostos a casar-se no mesmo dia! Para satisfazer a família e os amigos, eles se casam e depois de alguns meses fico sabendo que estão separados.
O que chamamos de volubilidade ou dispersão de mente é conhecido como perda ekagrata nas palavras de Patanjali. O que denominamos de constante volubilidade de sentimentos pode culminar em problemas de múltiplas personalidades no vocabulário psiquiátrico. Uma mente e um coração que estão sempre mudando resultam em uma consciência que está sempre mudando. É como se houvessem inúmeros indivíduos em uma só pessoa. Em tudo isso, o fator intermediário do “sentimento ” tem um importante papel. Constância de sentimento, ou o maior espaço possível entre dois sentimentos, é o que define uma pessoa.
De onde vem estes sentimentos?
Será que eles são realmente nossos? De certa forma sim, são nossos. Mas eles podem ser acionados a partir de dentro. Frequentemente são manipulados de fora ou de dentro como reações automáticas a situações. Na verdade, quando a mente não é guiada pela alma através do coração, ela é toda manipulada de fora. Então, ao invés de ser a nossa essência, ela torna-se um mecanismo. A consciência está além da mente e ela não é controlada por nada externo e nem por nenhum pensamento. Até hoje não existe nenhum experimento científico que demonstre qualquer o lugar no cérebro que correspondente à consciência. O propósito da meditação e da espiritualidade é nos conscientizar de tudo o que a mente é, e nos ajudar a abandonarmos nossa identificação com ela – a fim de criarmos presença constante, atenção plena e consciência.
E compreender tudo o que a mente é através da meditação nos dá um entendimento muito mais profundo sobre o que nos machuca mais, e porque reagimos da maneira como reagimos. Tudo depende de nossa identificação. A parte mais externa de nossa existência é nosso corpo físico. Se estamos completamente identificados com o nosso corpo, qualquer ataque ou crítica a nível físico nos machuca. Por exemplo: “Sua cara está horrível.” Mas a maioria das pessoas fica mais ofendida quando a mente é atacada. Por exemplo: “Por que você não pensou?!” – pois nos identificamos mais profundamente com a mente do que com o corpo. É por isso que a bipolaridade tem um maior estigma atrelado a ela do que a diabetes, ainda que ambas sejam doenças sérias – uma diz respeito à mente enquanto a outra ao corpo.
Se alguém ataca a nossa inteligência, machuca mais ainda: “Você é burro! Como você tomou esta decisão!” E se alguém ataca nosso corpo sutil egóico dói mais ainda, pois o ego está mais perto da alma. Dessa perspectiva, a mente pode ser considerada como uma agência externa. Quando alguém insulta você e você fica bravo, o insulto da pessoa é só um gatilho remoto. Então por que você se comportaria como um marionete, permitindo que sua raiva seja manipulada pelas mãos de uma outra pessoa?
Quando você fica com raiva, lembre-se que a sua mente está sendo controlada remotamente, comportando-se como um disco, de acordo com as combinações de conhecimentos que você acumulou como samskaras do seu passado. Eles são estruturados no cérebro como caminhos neurais. E conforme você vai removendo a sua identificação com a mente, você descobre a consciência do seu ser, a sua alma. A compreensão dessa distinção entre esses conhecimentos e a consciência superior de sua alma é uma das maiores coisas que podem acontecer a você, pois você será livre!
Neste exato momento, sua mente que deveria ser o servo está fazendo o papel de senhor. Consequentemente, você é escravo de seus desejos. A mente está funcionando como um marionete. É neste ponto que estabelecer um objetivo para nossa vida pode ajudar muito. Você é capaz de focar no seu objetivo, e naturalmente você evitará todos os pensamentos e sentimentos que o distraem de seu objetivo. No Heartfulness chamamos isso de recordação constante. A sua vida como um todo adquire uma nova dimensão. Você experimenta a vida em vida. A Transmissão infunde essa vida na vida em você a cada meditação – na verdade, ela é a fonte da vida na vida.
Como compreender e apoiar a raiva dos outros?
Mas esse jogo de raiva não diz respeito somente a nós. Como você reage quando os outros ficam com raiva? Você procura consertá-los ao tentar corrigi-los? Comprar tempo é o melhor tipo de apoio que você pode lhes dar, pois a raiva irá se dissipar. Mas caso isso não seja possível, ajuda se você sentar em atitude de prece, centrando-se e deixando a pessoa dissipar sua explosividade ouvindo e percebendo a sua calma.
Silenciosamente, faça a sugestão sutil de que a raiva deles está sendo puxada para fora e que a pessoa está se tornando cada vez mais amorosa e compreensiva.
As consequências da raiva
Alegria e raiva podem andar juntas? Assim como o fogo não convive com o frio, a raiva não permite que a alegria seja concebida. Uma pessoa raivosa não pode nem receber e nem compartilhar amor. Então, mesmo que você esteja fisicamente saudável, financeiramente rico e intelectualmente bem, o que acontecerá se a sua capacidade de amar e ser amado estiver faltando? Quem deseja associar-se a pessoas de pavio curto? Quem deseja estar perto do inferno? Você percebe as consequências quando o amor é rejeitado.
O jardim virtuoso que floresce dentro de você está cheio de presentes de vários tipos, tais como alegria, humildade, simplicidade, pureza e fortes músculos morais. Todos eles podem acabar incinerados pela menor fagulha de raiva. O fogo da raiva destrói tudo o que está em seu caminho – saúde física, paz individual, bem-estar mental, harmonia na família, confiança mútua e a ponte que conecta você com sua consciência superior. Você pode ter milhões de motivos para justificar a raiva, mas os frutos de tal erva daninha são extremamente tóxicos. Então por que fomentá-los?
Melhora contínua
Voltemos a ideia de Babuji que diz que a raiva é uma emoção divina; é uma energia que jamais pode ser destruída, mas que demanda ação de nossa parte. Seu propósito divino é criar uma melhora contínua em nós.
Assim, toda vez que você estiver com raiva, ao invés de culpar os outros, explodir, sentir pena de si ou se punir e depois sentir culpa, pergunte-se: “Como eu posso me corrigir?” Não há nada de errado em cometer erros contanto que você use essa oportunidade para evoluir a partir daquilo que você é hoje para tornar-se a pessoa que você espera ser. Se estiver constantemente vigilante, neste estado de consciência não haverá agressão, somente a esperança de um futuro luminoso”.
Kamlesh Patel
